sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Experiência "pra lá de" Alternativa

Vou contar uma história inacreditável que aconteceu comigo lá "pelos idos" de 1996/1997.


Como sempre gostei de escrever, de vez em quando participava de concursos culturais de jornais e revistas. Para minha alegria (já que nunca ganhei nada nesses projetos, além do prazer de escrever), cheguei ao final do Concurso "Viagem do Leitor" de uma Revista chamada "Turismo BrasilService".
Restavam só 3 finalistas, e eu, otimista como sempre, já me imaginava curtindo uma praia no mar do Caribe (com direito a acompanhante).

No mês seguinte, edição onde deveria ser revelado o ganhador da promoção, procurei por todas as bancas de jornal e não encontrei mais a revista.
Estranho?! Não tive dúvidas, liguei para a Editora (LARC Serviços de Comunicação Ltda), com aqueles telefones de 7 números ainda. O número não existia. Tentei todas as outras formas (dos anos 90) de comunicação (carta, fax, telefones de filiais de outros estados), nada! Lembrando que eu não tinha acesso à internet na época.

Resumindo, a revista fechou e a história do único concurso que eu poderia ter ganho na vida, ficou na lenda!
Claro que, assim que tive acesso à internet, algum tempo depois, minhas primeiras palavras escritas nos sites de busca foram: "revista turismo brasilservice" e "larc serviços de comunicação"...nada! Essa última até existe, mas o "website não é divulgado". Decepção!
Lembrei disso esses dias e resolvi aproveitar o espaço aqui para não deixar a história, nem o texto, se perderem no tempo.
Segue abaixo a comprovação da publicação (sim, eu mantenho a revista até hoje - Ano XI, nº 118, R$ 6,00...questão de honra!).

Quem souber notícias da revista, do meu (possível) prêmio ou só quiser fazer comentários sobre o que achou do texto, será muito bem-vindo!

Em tempo, a viagem para Cancun e o lugar descrito realmente existem. Mas não passei a noite lá e, claro, minha imaginação ajudou para a finalização do texto.



"EXPERIÊNCIA ALTERNATIVA"
Por trabalhar em um hotel 5 estrelas e viver sob o constante stress da vida urbana, sempre apreciei o contato com a natureza e viagens alternativas.
De férias em Cancun, cheguei a uma praia de difícil acesso, próxima às ruínas maias, típicas naquela região. Fui informada de que a praia era própria para nudismo e dispunha de cabanas "simples" para passar a noite. Achei a idéia tentadora (não que seja adepta ao nudismo). Mal podia imaginar o martírio que me aguardava. A palavra "simples" nunca mais teve o mesmo significado para mim.
Resolvi me hospedar por uma noite e, na ansiedade de curtir novas emoções, nem me preocupei em dar uma olhada nas dez cabanas disponíveis. Tudo começou com o proprietário do local. Um homem saído diretamente de Woodstock e seguidor ortodoxo do movimento hippie. Ao invés de espanhol, apelidei seu linguajar de "mexicanês pode crê"! Quando perguntei pelas chaves, recebi um irônico sorriso como resposta. Não entendi!
Finalmente cheguei ao aconchego da cabana que seria meu lar durante aquela noite. Nunca tive graves problemas de saúde, mas naquela hora pude sentir na pele como deve ser doloroso um princípio de enfarte.
Entendi o porquê do sorriso irônico do anfitrião...um pedaço de corda era a "chave".
Com um confortável "living", quarto e cozinha conjugados em 2 x 2,5 m, a cabana era feita de madeira e, pasmem, não havia assoalho. Somente algumas tábuas de madeira foram erguidas sob a areia da praia e, ainda assim, com frestas que mais pareciam janelas ou persianas para ventilação. Fui tentando, aos poucos, me refazer do susto. Afinal de contas nem tudo estava perdido, pois havia uma rede para que minha escoliose passasse bem a noite. Que pesadelo!
Aliás, a belíssima rede, que não poderia ter sido lavada nos últimos cinco anos, parecia a salvação, já que era a única mobília do distinto recinto (até rimou!).
Já estava entardecendo e a maioria dos turistas retornavam para o centro de Cancún, para seus colchões, chuveiros quentes e toda aquela infra-estrutura básica que ninguém dá valor até ter a infeliz idéia de tentar ser "alternativo". Tudo bem, o espírito de aventura estava falando mais alto.
Na praia restavam somente alguns casais de namorados (hippies, é claro) e simpatizantes do nudismo. Deveria ter aproveitado aqueles singulares momentos para um estudo sociológico aprofundado daquele grupo de pessoas que vivia num mundo completamente isolado do resto da civilização.
Depois de muita meditação e bate-papo sobre o cosmos, nada melhor que um banho, um jantar típico e uma noitada "a la Mexico"!
O banheiro comunitário se resumia em uma casinha de madeira sob uma duna de areia que insistia em mudar de lugar conforme o vento. Claro que as frestas nas paredes, assim como nas cabanas, estavam presentes. O tão esperado banho quente provinha de um chuveiro que oferecia, em torno, de cinco gotas geladas para cada hóspede. Até hoje ainda acho que era água salgada.
Não preciso falar da existência ou não de sabonetes, toalhas, etc. Shampoo? "O que é isso?" Fiquei com medo de perguntar pelo condicionador.
Passado o trauma do banho, pés constantemente em contato com a areia da praia, vamos ao jantar. Uma escada natural, feita de pedras e areia me separava do restaurante mais próximo. Só não haviam me avisado dos quase 100 degraus que deveria enfrentar. Tudo bem, os deliciosos pratos típicos tirariam a má impressão deixada pelo terrível acesso ao local. Eu já estava me acostumando com as decepções e a porção de minúsculos e engordurados camarões "típicos", servidos como prato principal, não me surpreenderam. Recuso-me a lembrar dos outros pratos. Entendi porque o pessoal alternativo era vegetariano, ou estava sempre fazendo jejum. Meu paladar nunca mais foi o mesmo.
De volta ao "resort", fui à beira da praia apreciar o local. Foi o momento mais bonito do dia. A lua parecia sorrir de tão bela. Por alguns momentos achei que ela estava rindo da minha situação...debochada! Bem, eu daria razão a ela, mas logo voltei ao meu estado contemplativo. Notei que a grande farra, regada à tequila e acompanhada pelos mariachis não acontecia. As estrelas foram o espetáculo. Realmente inesquecível, mas o pior estava por vir. Eu teria que (ou pelo menos tentar) dormir na rede "king-size" que me aguardava.
Posso dizer que foi a noite de sono (ou sem ele) mais terrível da minha vida. Mas teve suas compensações.
Acordei com meus "vizinhos" hippies tocando violão em uma reverência ao sol. Aquela paz toda já estava mexendo com meus nervos. Após duas horas tentando colocar a minha coluna no lugar, arrumei minha mochila (coitada!) e comecei a me despedir do lugar. Não me importei em desperdiçar a diária válida até o meio dia.
Na minha caminhada para o ônibus que me levaria de volta à Cancún, olhei para trás e pude ver meus amigos ainda cantando, meditando, sem banho a vários dias, jejuando e, posso até dizer, em seu estilo alternativo de ser, sendo felizes. Senti-me melancólica por um minuto, mas, no minuto seguinte, pensei:
- "Qual o problema de um hotel 5 estrelas?"
Bem, já posso dizer que fui "alternativa" uma vez na vida. Meus netos se orgulharão de mim. Ai, minha coluna!
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