segunda-feira, 22 de novembro de 2010

O Ensino Superior no Brasil e a Hotelaria

Esse meu artigo foi também publicado no Hôtelier News. Leia AQUI.
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Hoje decidi falar sobre um assunto que me fascina e é muito presente na minha vida há alguns anos: o ensino superior. Levo meu lado acadêmico muito a sério e gostaria de ter mais tempo para poder me dedicar ao término dos estudos, escrever livros, dar mais aulas, participar de pesquisas, etc.

Além de uma paixão, realmente acredito que a educação é a base para um crescimento sustentável do país. Entretanto, estamos longe do cenário ideal. Veja alguns fatos:

• Muitas faculdades abrindo, mas com qualidade duvidosa. O índice de reprovação do MEC (Ministério da Educação) é enorme.

• O custo do ensino superior no Brasil é mais alto (até 30%) que alguns países da América do Sul, o que explica somente 11% dos jovens entre 18 e 24 anos terem acesso a uma faculdade por aqui.

• Ainda não formamos empreendedores. Geralmente, os alunos buscam notas (passar de ano) e/ou dinheiro (não trabalho). A inovação ainda não é assunto corriqueiro nos bancos das universidades brasileiras. Exemplo disso é a quantidade de jovens estudantes brilhantes que almejam cargos públicos e nem cogitam tornarem-se (micro) empresários. Além do ambiente desfavorável para empreendedores no Brasil, nosso ensino continua formando “empregados”.

• O currículo das universidades ainda é enciclopédico, por disciplinas e conteúdos. Claro que algumas (poucas) já estão avançadas nisso, mas a idéia é que todas cheguem ao ideal de currículos enxutos, contextualizados e por competências.

• Volta e meia nos deparamos com um comércio explícito de diplomas.

• Média de estudantes que concluem universidade é por volta de 55% em entidades particulares e 67% em públicas. E o número vem caindo no decorrer dos anos. Fonte: MEC/INEP/DEED

• Fato: escolas públicas ainda não oferecem o mesmo nível de educação das escolas particulares.


                                                         Fonte: http://www.palavras.blog.br/
• O Brasil é um dos países com maior número de alunos por sala de aula. Enquanto na Dinamarca a relação é de um professor para cada 10 alunos, no Brasil esse número sobe para mais de 29. Fonte: OIT e UNESCO

• O salário do professor (ensino fundamental) no Brasil é o terceiro menor do mundo, perdendo somente para Indonésia e Peru. Na Argentina, os professores ganham o dobro dos brasileiros e na Coréia, 6 vezes mais. Fonte: OIT e UNESCO

• Em função do item acima, cada vez menos jovens buscam a docência. Somente 2% dos estudantes do ensino médio demonstram interesse em prestar vestibular para ser professores. Fonte: CNTE

Ser professor perdeu o prestígio. E isso é uma “bola de neve” pois, sem atrativos, a especialização dos professores cai, aumenta seu absenteísmo, implica em ensino de pior qualidade e assim por diante. Lembrando que menos educação significa menos consciência de cidadania...está entendendo onde quero chegar? O impacto disso é maior que você imagina!

Será que é tão difícil entender que o professor é a “chave de tudo”? Hoje, vemos professores que não conseguem educar porque não aprenderam. Essa insegurança os leva a culpar a família do aluno ou o próprio aluno pelo fracasso. Professores deveriam ser prioridade na capacitação continuada.

• O relatório de Competitividade Global, lançado pelo Fórum Econômico Mundial em parceria com o Movimento Brasil Competitivo (MBC) e a Fundação Dom Cabral, aponta que o ensino superior do Brasil ficou com a 58ª colocação mundial. A Suíça ganhou como melhor educação (na pontuação geral com todos os níveis) do mundo.

• A Thomas Reuters Education (THE) lançou recentemente um ranking das 200 melhores universidades do mundo. Das 10 primeiras, 7 estão nos Estados Unidos e 3 na Inglaterra. Harvard ainda está no topo. Nenhuma universidade do Brasil aparece.

• Nenhum país construiu educação de qualidade sem garantir acesso para todos, mas sabemos que a educação ainda é excludente no Brasil. Exemplo disso é que a escola pública ainda é vista como favor e não como direito.

• Educação não é uma estratégia sustentável no nosso país.

• Não, eu não vou comentar sobre o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Me recuso.
 

Em resumo, o que precisamos é levar a educação mais a sério no Brasil e sincronizá-la com as demandas da sociedade do conhecimento que vivemos hoje. A Fundação Victor Civita sugere soluções interessantes:
• Qualificação para o exercício da cidadania
• Aprender a aprender
• Acessar, processar e dar sentido à informação
• Resolver problemas
• Trabalhar em grupo

E não achem que sou pessimista. Acredito que estamos progredindo. Minha preocupação é com a velocidade dessas mudanças. Se quisermos que o BRIC mantenha o “B”, precisamos começar HOJE. Afinal, os resultados nessa área demoram, pelo menos, uma geração.

E quando digo que estamos melhorando, posso dar o exemplo do investimento público em educação do país, que chegou a 5% do PIB em comparação aos 3,9% em 2000. O governo já fala em 6% (que é a recomendação da Unesco) para 2011. (Fonte: MEC/INEP)

Entretanto, os participantes do CONAE (Conferência Nacional de Educação) querem a meta de 7% para 2011 e 10% até 2014. E eles não deixam de ter razão. A defasagem é tão grande que a Unicef afirma que 8% seria o mínimo aceitável para o Brasil. O ideal ainda seria 10% (8% para creches ao ensino médio e 2% para o ensino superior).

Como referência, os países da América Latina já investem 4,5% do seu PIB em educação. Definitivamente, é hora de investir, mas investir certo, ou seja, que o dinheiro “chegue onde deve chegar”.

Mas e a educação hoteleira nesse contexto?

Bem, não é segredo para ninguém que a educação na área de hospitalidade começou da necessidade de treinar pessoas para o trabalho. Com o foco na capacitação dos recém chegados, não houve espaço para maiores preocupações em relação a grandes reflexões, pesquisas ou embasamento teórico.

O primeiro curso voltado para a hotelaria data de 1951 e foi uma Especialização em Garçom. Mais tarde surgem os cursos de camareiras e, somente em 1964, a primeira Escola de Hotelaria do SENAC é aberta em São Paulo.

Em 1978, os cursos começaram a ter uma conotação mais administrativa com a criação do CEATEL – Centro de Estudos de Administração Hoteleira e o convênio com a Universidade de Cornell nos Estados Unidos. Depois disso surgiram cursos superiores de Tecnologia em Hotelaria na Universidade de Caxias do Sul e nas Faculdades Integradas Renascença.

Ainda em 1988, com a criação do Curso Superior de Tecnologia em Hotelaria do SENAC, a demanda era irrisória e seu vestibular contou com 10 alunos por vaga, somente com alunos de classe média alta.

Hoje em dia, esse curso já conquistou 4 estrelas em uma das mais prestigiadas publicações especializadas em cursos superiores, o Guia do Estudante – Profissões Vestibular 2011. Além disso, conta com renomados hotéis escola.

Em 2000, a Castelli Escola Superior de Hotelaria é aberta no sul. Recentemente, seu curso de Bacharelado em Hotelaria recebeu 5 estrelas e se tornou o único do país a ostentar a avaliação máxima do Guia do Estudante.

Outro curso “estrelado” é o da Universidade Anhembi Morumbi, que oferece uma grade curricular desenvolvida e supervisionada rigorosamente pela Glion Institute of Higher Education (GIHE), na Suíça, classificada como uma das três melhores instituições do mundo na área.

Como novidade, após parceria de cinco anos no Rio de Janeiro, a Universidade Estácio de Sá abrirá um curso de duplo diploma em Hotelaria com a École Hôteliére de Lausanne (Suíça) em São Paulo, a partir de 2011. Os alunos formados serão contemplados com parte do currículo de uma das mais antigas escolas na área do mundo, criada em 1893, o que lhes habilitará a um emprego em qualquer cidade do mundo.

Estive conversando pessoalmente com Marcus Carruthers, Diretor do Curso na Estácio e ele tem uma visão interessante sobre essa área no Brasil:

A educação superior em hotelaria evoluiu consideravelmente nesta última década no Brasil, com a entrada de grandes redes internacionais e a consolidação do setor na economia brasileira, quando uma educação formal e de qualidade se tornou requisito básico para o mercado hoteleiro. Mas ainda é limitada a Instituições de Ensino Privadas e em grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro. As Instituições de Ensino Federais e Estaduais ainda não oferecem a cadeira de hotelaria em suas grades curriculares, mas existe uma grande demanda reprimida para esta área, vide a UFRJ ter tido 2.000 alunos inscritos para o 1o Vestibular de Gastronomia da história da UFRJ, que será lançado agora em Fevereiro de 2011 (detalhe: somente 20 vagas disponíveis!). Um claro sinal do aprimoramento da qualidade de ensino de hotelaria é a associação de Universidades brasileiras com grandes Universidades internacionais, buscando troca de experiências, expertise de conhecimento e melhorias na infra-estrutura.”

Carruthers ainda comenta que, em hotelaria, o que o aluno pode esperar de uma boa universidade é um ensino de qualidade. Entretanto, o sucesso no mercado de trabalho depende também da sua paixão e comprometimento pela área. Além disso, concordamos que a hotelaria é um mercado em franca expansão no Brasil, onde há ainda grandes oportunidades de crescimento profissional.

No final da conversa, ficou clara a proposta da universidade quando Marcus disse que, com o “duplo diploma”, o aluno tem portas abertas para conseguir entrevistas em qualquer lugar do mundo. “Eu levo ele até esse momento, daí para frente é com ele”, afirmou. É, a Estácio não está para brincadeira!
Novas instalações da Estácio em São Paulo (Chácara Flora) que ficarão prontas em Janeiro 2011.

Sabemos que lacunas no ensino superior de hotelaria ainda existem:

1) Uso de tecnologia avançada

2) Participação da indústria no meio acadêmico – raros são os gerentes que dispõem de parte do seu tempo para motivar e compartilhar experiências práticas com alunos. Isso leva a uma visão romântica da hotelaria, levando muitos estudantes a saírem do segmento assim que se formam, pois não imaginavam a realidade que os esperava. O ambiente tranquilo de uma universidade está muito distante da realidade agitada: trabalho nos finais de semana e muita “ralação” de quem começa sua vida profissional dentro de um hotel.

3) Alto custo das mensalidades em comparação às baixas remunerações do setor. A médio e longo prazos, isso pode ser desmotivador para o aluno, que acaba desviando sua carreira para outras áreas.

4) Ainda faltam cursos de qualidade no mercado em função da crescente demanda. Conversando com Roberto Miranda, idealizador do inovador e excelente MBA de Gestão de Hotelaria de Luxo, o mesmo comentou que já deveriam existir pelo menos uns 5 cursos como o seu para começarmos a qualificar propriamente nossa mão de obra para a Copa e Jogos Olímpicos. E ele tem toda a razão!

Adendo não publicado no Hôtelier News - Após ler o artigo, Roberto me escreveu dizendo que o Brasil ainda será referência em hospitalidade no mundo. Novamente, ele tem razão!

Mas, como me considero uma “apaixonada” (mas realista) pela área, vejo um futuro promissor. Em recente artigo no site 4Hoteliers.com, os americanos analisaram os pontos fracos das suas instituições de ensino hoteleiras e sugerem que as empresas invistam nos melhores estudantes universitários, proporcionando-lhes trabalhos temporários e programas de trainees. Motivo? Com os atuais níveis de preparação, os Estados Unidos estão em uma posição fraca perante sérios concorrentes no cenário global, especialmente Índia e Brasil. 

Pois é hoteleiro, ficar parado reclamando que não consegue preencher aquela vaga no seu hotel há algum tempo, ou tentando achar culpados para o problema de educação no país, não ajudará muito. Vamos cobrar investimentos, valorizar professores, incentivar o estudo, tratar seriamente os programas de estágios e nos aproximar mais do meio acadêmico. Sua colaboração pode ser maior do que imagina!

Tenho muito orgulho de participar como docente de 3 das instituições citadas acima. Não ficarei fora dessa mudança de jeito nenhum! 

Precisamos entender definitivamente o real sentido de EDUCAR e APRENDER!
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